Tarso: ‘Mensalão teve reflexo negativo para PT’
Mais realista do que a média das lideranças do PT, o governador gaúcho Tarso Genro admite: as condenações impostas pelo STF aos réus do mensalão produziram prejuízos politicos para o partido. “É óbvio que o julgamento teve um reflexo negativo para o PT.”
Tarso falou à repórter Júnia Gama num instante em que as pesquisas informam que o PT deve ter desempenho pífio na disputa pela prefeitura de Porto Alegre, outrora um reduto petista. O prefeito José Fortunati (PDT) deve ser reeleito no primeiro turno. Aqui, a íntegra da entrevista. Abaixo, trechos das declarações do governador:
- Efeito mensalão: Do ponto de vista político, é óbvio que o julgamento teve um reflexo negativo para o PT. Primeiro, porque todo o discurso paralelo ao diálogo processual incriminou o PT em abstrato, como se aquele grupo fosse mandatário pelo PT para fazer o que supostamente fez. Há, sim, uma incidência sobre o processo eleitoral. Segundo, porque a agenda do julgamento foi visivelmente programada para colocá-lo como um elemento durante o processo eleitoral.
- O Day after: Não consigo medir ainda os efeitos do processo sobre a vida dessas pessoas [condenadas] e do partido, mas os réus todos já entraram condenados nesse processo. Tanto é que, quando o ministro Ricardo Lewandowski fez algum dissenso em algum voto, foi olhado como uma pessoa que estava a serviço de alguma coisa errada. Estou longe de, com isso, dizer que são inocentes. Se a condenação será justa ou injusta, será preciso ver como irá ser feito. Nenhum dirigente partidário nosso tem qualquer dúvida de que ocorreram irregularidades e ilegalidades. Quem as fez, como as fez e porque as fez, é um nível de avaliação técnica que só o processo pode fazer.
- O rescaldo do incêndio: O PT, do ponto de vista eleitoral, vai crescer menos por causa do mensalão, mas não vai deixar de crescer. O que defendo é que isso não pode transitar para uma condenação abstrata do partido, porque condenação abstrata é uma visão fascista. É como dizer que toda uma comunidade é culpada porque nela há um ladrão.
- A renovação: Preparamos documentos para logo depois das eleições continuar o movimento de renovação. Nossa aliança preferencial deve ser com PCdoB, PSB e PDT para, a partir daí, buscar o centro democrático, o PMDB. E não passar por cima desses partidos para fazer alianças que deslocam essas forças para outro campo, como se disseminou no país. O PT às vezes sucumbe a certas posições que não são históricas do partido. As alianças se tornam muitas vezes contingentes e pragmáticas e, em determinadas regiões, o PT começa a se descaracterizar.
- A novidade de Recife: O que há em relação ao PSB de Pernambuco é um afastamento em função da ausência de uma política do PT para se reportar aos partidos de esquerda como aliados principais. E aí Eduardo Campos tem o direito de ter o seu candidato. Não foi feita uma avaliação esclarecedora do PT com esses partidos para discutir o melhor projeto para Pernambuco. O que recebemos de lá é que há uma guerra dentro do PT, que perdeu uma oportunidade de formar uma frente de centro-esquerda. Pelo que sei de Pernambuco, as facções do PT não se conversam até hoje.
- O neopresidenciável Eduardo Campos: O espectro com que meu amigo pessoal e companheiro de governo Eduardo Campos trabalha é de formação de um bloco de centro-esquerda, hegemonizado pelo PSB, que foi a estratégia que o PT trabalhou até agora e que foi se tornando mais frágil. O PSB tem o direito de fazer o mesmo. Para isso, tem que, ou atrair o PMDB, ou o PSDB. Em função dos desgastes políticos que Aécio vem sofrendo, o PSB pode apontar uma chapa Campos-Aécio. E isso gerará no país duas alternativas que têm mais ou menos a mesma tintura política: de um lado Dilma, de outro Eduardo. Diante desse quadro, acho que o PT deve movimentar-se para compor uma frente orgânica da esquerda, com o PSB, para reaglutinar esse campo democrático e manter o tucanato isolado.
- A aposta na reconciliação: Pelo que conheço do Eduardo Campos, não. Primeiro, porque ele é jovem, pode esperar tranquilamente seis, dez, 14 anos para ser presidente da República. Segundo, ele tem princípio de não enfraquecer a tradição política dele, que seria levada a fazer aliança com o PSDB só em última instância. Acho provável que haja essa reconciliação. Temos que olhar para a possibilidade de que ela não ocorra, para trabalhar essa aproximação com Eduardo.
- O Waterloo de Porto Alegre: Fortunati não tem um juízo negativo da população. A Manuela [D’Ávila, do PCdoB] representa a juventude, e o [petista Adão] Villaverde realmente saiu na disputa com um espaço constrangido. Os três são da base, e temos apreço especial por eles. A única convicção que tenho é que o governo não vai perder, porque todos os candidatos são pessoas honradas, com qualidade política, com as quais tenho diálogo pessoal direto há muito tempo.
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